Eu nunca fui completamente insano. Exceto, nas situações em que meu coração foi tocado. - Poe- Não há vagas.

26th December 2011

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” gato walks by himself e não há Tao nem prosa mágica que o retenha além de suas horas e seus ânimos/ como era doce reencontrar você todo ano, no dia em que bem entendesse, na noite de lua que escolhia displicente para pular até a janela e ficar algumas horas conosco antes de voltar para sua liberdade que como tantos de nós você trocou por uma aposentadoria de gato, pelo céu que lhe prometeram.”

(A entrada em religião de Teodoro W. Adorno- Julio Cortázar)

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25th October 2011

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OTELO - Docemente! Uma palavra ou duas antes de irdes. Prestei alguns serviços à República, o que é sabido. Mas sobre isso, basta. Peço-vos por favor que em vossas cartas, ao relatardes estes tristes fatos,faleis de mim tal como sou, realmente, sem exagero algum, mas sem malícia. Então a alguém tereis de Otelo referir-vos que amou bastante, embora sem prudência; a alguém que não sabia ser ciumento, mas,excitado, cometeu excessos, e cuja mão, tal como o vil judeu, jogou fora uma pérola mais rica do que toda sua tribo; a alguém com olhos vencidos e que embora pouco usados aos sentimentos moles, maior número de gotas derramaram do que as árvores da Arábia fazer soem com sua goma medicinal.Contai-lhes isso tudo. E também que em Alepo, certo dia, um turco de turbante e malicioso bateu num veneziano e em termos baixos falou do Estado, e que eu, pela garganta detendo aquele cão circuncidado,o feri deste modo, assim… assim…(Apunhala-se.)

Otelo, Mouro de Veneza - Wiliam Shakespeare

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23rd September 2011

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“Ela era como uma estrela cadente”, observou Esther Williams, ” e era impossível não ficar fascinado com sua jornada. Sabia-se que ia se chocar e se queimar, mas não se sabia como. Era certo, porém,que a jornada seria cintilante e incrível.”

- A vida secreta de Marilyn Monroe ( J.Randy Taraborrelli)

“Ela era como uma estrela cadente”, observou Esther Williams, ” e era impossível não ficar fascinado com sua jornada. Sabia-se que ia se chocar e se queimar, mas não se sabia como. Era certo, porém,que a jornada seria cintilante e incrível.”

- A vida secreta de Marilyn Monroe ( J.Randy Taraborrelli)

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27th July 2011

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“De costas para o outro, rosto voltado para o escuro,braços abertos. Como se dançasse.”

“Sem querer desejou que, fosse o que fosse,ali, guardado no ar, à espera do toque, entre paredes brancas, os dedos encontrassem logo o objeto. Que se fechassem definitivos sobre eles numa espécie de posse, para alívio dos dois.”

“Tudo macio. Não há ruido.Só uma coisa fofa. Uma dor lenta,vaga.Uma dor que começa a ser dor só aos poucos, não de repente, porque é aos poucos que você começa a perceber que ela existe, a dor.”

” - Você sabe que de alguma maneira a coisa esteve ali, bem próxima. Que você podia tê-la tocado. Você podia tê-la apanhado. No ar, que nem uma fruta. Aí volta o soco. E sem entender, você então para e pergunta alguma coisa assim: mas de quem foi o erro?”

“Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você.”

” É preciso cuidado com o arisco, senão ele foge. É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo. Cada movimento em direção a ele é tão absolutamente lento que o tempo fica meio abolido. Não há tempo. Um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. Duma ilusão de eternidade. Onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. Para não assustá-lo, para tê-lo dentro dos seus dedos quando eles finalmente se fecharem,você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno.”

” Naturalmente. As coisas sempre prestes a serem apanhadas. E você eternamente prestes a apanhá-las. Como uma sina. Sempre prestes.”

” - Entendeu? É bem simples.E medonho,porque não para nunca de acontecer. A mão que daqui a pouco ia estar cheia- pronto! Está vazia de novo.”

Caio Fernando Abreu - Triângulo das águas/ Pela noite.

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25th June 2011

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Todos os moralistas estão de acordo em que o remorso crônico é um dos sentimentos mais indesejáveis.Se uma pessoa procedeu mal, arrependa-se, faça as reparações que puder e trata de comportar-se melhor na próxima vez.Não deve, de modo nenhum,pôr-se a remoer suas más ações.Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo.

Admirável mundo novo - Aldous Huxley

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7th June 2011

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Julio Cortázar - Ventos alísios

“Sempre tinham feito o amor ao final de seus aniversários, esperando com amável displicência a saída dos últimos amigos, e desta vez quando não havia ninguém, quando não tinham convidado ninguém porque receber os aborrecia mais que estar sozinhos, dançaram até o fim do disco e continuaram abraçados, olhando-se em uma bruma de quase-sonho…”


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19th May 2011

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8 de fevereiro

Chorei três horas, depois dormi dois dias. Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo,total. Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia.

10 de abril

E se eu mudasse meu destino num passe de mágica? Voltar a Estocolmo, casar com Anita,ganhar passaporte sueco,auxílio desemprego do governo,viajar para índia,Goa,Nepal, Katmandu. Não sei se conseguiria. Estranho, mas é sempre como se houvesse por trás do livre-arbítrio um roteiro fixo,pre-determinado, que não pode ser violado. Um roteiro interno que nos diz exatamente o que devemos ou não fazer, e obedecemos sempre, mesmo que nos empurre para aquilo que será aparentemente o pior. O “pior” às vezes é justamente o que deveria ser feito?

Ovelhas negras - Lixo e purpurina. Caio Fernando Abreu

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16th May 2011

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Mas também, às vezes a Noite é outra: sozinho, em postura de meditação ( será talvez um papel que me atribuo?)

penso calmamente no outro, como ele é: suspendo toda interpretação; o desejo continua ( a obscuridade é transluminosa)

mas nada quero possuir: é a noite do sem proveito, do gasto sutil,invisível: estoy a escuras: eu estou lá,

sentado simples e calmamente no negro interior do amor.

Roland Barthes:

Fragmentos de um discurso amoroso. 

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13th May 2011

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Essa música. esse texto.  Porque ” filho de sol poente quando teima em passear desce de sal nos olhos doente da falta que sente do mar”

Trechos importantes e significativos pra mim desse conto do Caio Fernando.

- O Marinheiro

Música bonita e supimpa do Marcelo Camelo

- Despedida

O marinheiro…

“São muitos objetos, tantos que frequentemente penso que daqui a algum tempo será difícil movimentar-me aqui dentro, no espaço que se reduz,quase todos feitos por mim mesmo.”

“Gosto quando a cabeça para o maior tempo possível, caso contrário enche-se de temores,suspeitas,desejos,memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desoupadas. Ocupo-as então fazendo coisas que depois disponho pelos cantos.”

“Ou: é cinza e longo o que de mim obliquamente se reflete em certos vidros.”

“Me ocorre, essa é outra coisa que poderia dizer de mim mesmo, quisesse ser preciso- além de cinza e longo -, tenho um quarto vazio por dentro.”

“Eu tinha escolhido assim,num remoto dia qualquer em que deixei de acreditar, não lembraria quando, e isso era para sempre tanto quanto pode ser pra sempre o que por estar vivo  tem um coração que bate mas, imprevisto e fatal, um dia deixará de bater. Por não querer mais depositar esperança em nada que pudesse vir de fora, já que de dentro nada mais viria,estava certo.”

“Pois são completas as coisas quando acontecem depois de anunciadas por dentro,criando um estado capaz de receber o que virá de fora.Como um telegrama, um telefonema, um aviso qualquer previamente anunciando a chegada, para que se possa arrumar a casa,tirar a poeira dos cantos, arrumar a cama,trocar lençóis, limpar pratos, poltronas,recebendo o hóspede ao mesmo tempo desejado e inevitável.”

“Eu estava suspenso entre algo que começava a fechar-se e algo que terminava de abrir-se.As batidas continuavam. Eu precisava fazer algum coisa, talvez descer as escadas, abrir a porta, deixar que entrasse. Ao fazer qualquer uma dessas coisas teria de aceitar que algo se fechara, e abrir a porta para que o marinheiro entrasse seria também permitir que esse outro algo terminasse de abrir-se, me levando para um caminho imprevisto.”

“Para olhá-lo eu também precisava de certa loucura. Essa que me indicava. A mesma a que me tenho negado em susto,atravessando cotidianos de monótonos côncavos deliberados,movendo-me pelos labirintos coloridos desses interiores sempre previstos,embora absurdos. Eu não estava distraído nem tinha disfarce algum quando ele me olhou. Ele não tinha nenhum disfarce quando eu o olhei. Mas não devia me permitir escorregar naquele mergulho de peixes quem sabe vorazes, isso só compreendo agora, e com esforço, sete dias depois de sua partida,uma garrafa de vinho tinto, a chuva se foi, restaram o frio e a umidade que amolece papéis e vontades, aberta ao lado da janela escancarada pra noite lá fora,onde ruge uma cidade estufada de rumores e procuras.Preciso dizer nesse momento, embora talvez não caiba aqui. Ainda que me tenha isolado assim drástico, ainda que elabore dentro de mim e da casa pacientes, irrefutáveis justificativas para ter cerrado as portas ao de fora, o humano que afastei através dos vidros coloridos, esse humano dói,palpita,ofega,tem ritmos suarentos fora de mim.”

”- Abraça tua loucura antes que seja tarde demais.”

“Pressupondo que eu e ele nos movimentaríamos ainda segundo os ritmos mecânicos, na dança urbano dos passos ensaiados de além dos vidros pintados de roxo-amarelo.”

“Não como se pedisse licença para entrar num lugar que não lhe pertencia, mas ocupando o espaço que lhe era destinado.”

”- Não mato o que me ameaça. Nem o que vive. Eu apenas passei. - E a ave? Viu também a ave? - Estava no meio do caminho. Me limitei a afastá-la.”

“Quando pensei nisso tive a sensação esquisita de estar girando dentro e junto com uma agitada roda colorida. Subia e baixava - eu, a roda da fortuna- nos braços às vezes de um demônio sombrio vestido de negro, às vezes de um arcanjo dourado,em susto, em prazer, em nojo, em delírio. Quis dizer a ele que me havia afastado assim que a roda rodasse distante de mim, sem me envolver em seus volteios vertiginosos.”

“Embora não conheça o ponto onde devo chegar, é pra lá que me dirijo cego, aos trancos. Pouco importa o que poderia me afastar dessa tentativa quem sabe inútil de recuperá-lo, ou o que trouxe consigo desde que veio e se foi.Perdi meu equilíbrio quando veio, e mentia meu equilíbrio ante que viesse.”

”- Você tem grades nos olhos. - disse. - Elas estão quase sempre abertas. Não são suficientemente estreitas para prender alguém ou alguma coisa. Houve um dia em que você deixou alguém fugir por entre as grades.”

”- Porque já me fui. E nada do que poderias fazer agora eu conseguiria fazer novamente, então sinto pena - disse o anjo fechando as asas sobre o rosto magro.”

”- Tenho sete formas. Navegue.”

“Pedi que ficasse, como não ficou o outro. Mas não o suportaria, acrescentei a seguir.Sorriu. Como se nada que eu pudesse dizer fosse capaz de modificar sua partida.Ainda chove, tentei dizer. Não importa, será melhor assim,repetia sua mão estendida. Passou-a devagar na minha face. Eu era uma coisa pequena rastejante e sem Deus, caminhando no escuro lamacento à procura apenas de qualquer gesto como o toque de uma mão humana, devagar na minha face.Ele tocou. Calçou os sapatos, apanhou o chapéu. Eu quis dizer que poderia ocupar o segundo quarto - a segunda cama, a segunda vida- talvez pra sempre.Eu estava tão vivo que qualquer outra coisa também viva e próxima merecia minha mão estendida,oferecendo. Estendi a mão. Ele não podia aceitá-la.Eu não devia estendê-la. - O navio demora pouco no porto- disse antes de partir. Um marinheiro desce,olha a terra, às vezes deposita algo, e logo torna a partir.”

“Coisas que se tinham perdido no tempo, e por perder-se no tempo tinham perdido junto sua própria existência. Eu não podia permitir a mim mesmo continuar me perdendo no que deixava de ser.”

“A minha não participação seria ainda uma forma de participar, permitindo que tudo acontecesse sem interferir.”

“Meus olhos já não tinham grades. Comecei a caminhar em direção ao que via.”

“A casa inteira está deserta. A casa inteira agora é igual ao segundo quarto. Posso entrar sem medo no segundo quarto. Ele tornou-se como o resto da casa, ou o resto da casa tornou-se como ele, ou ambos tornaram-se o que sempre foram, assim sem disfarces, e nada tenho a temer de paredes vazias. Me pergunto se alguém os amaria assim, tão nus.”

“Com cuidado,com carinho, vou derramando gasolina sobre todos os objetos. Agora já não há dor nenhuma em lembranças de emoções como partidas, quartos vazios, separações.Não tenho mais emoção alguma. Sou só um corpo dotado de movimentos que vai derramando meticuloso a gasolina sobre os objetos.Tudo isso leva muito tempo. Não há nenhum centímetro dessa estranha montanha que não esteja impregnado até o fundo.”

“Sentado no chão permaneço ouvindo os barulhos da noite de sábado além dos muros. Espero paciente que se dissolvam aos poucos, que a cidade reste quieta enquanto as estrelas mudam de lugar sobre minha cabeça.”

“Antes de me pôr a caminho, abro devagar e completamente os braços para depois fechá-los arredondados, tocando suavemente a ponta dos dedos de uma das mãos nas pontas dedos da outra. Como se faz para abraçar uma pessoa. Mas não há nada entre meus braços além do ar da manhã. Suspiro, sorrio,desfaço o abraço. Então, com as mãos vazias, finalmente começo a navegar.”

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